segunda-feira, 28 de maio de 2012

Adeus às armas


Entrevista de Geraldo Vandré ao repórter Geneton Moraes Neto - programa Dossiê Globo News - 12-Set-2010



Ernest Hemingway em “O Velho e o Mar” dizia que é possível destruir um homem, mas nunca derrotá-lo. 

Talvez o pensamento acima seja o que melhor descreve este homem: Geraldo Vandré, entrevistado no dia do seu 75º aniversário.
Nascido em João Pessoa em 1935, cantor, compositor, ex-participante do movimento estudantil, ele é autor de sucessos como 'Disparada' e a "Marselhesa brasileira" 'Pra não dizer que não falei das flores'.

Talvez uma das figuras mais enigmáticas da MPB, "sumido" durante décadas da mídia, nesta entrevista teríamos finalmente a chance de ver as revelações de um dos artistas mais transgressores e perseguidos pela ditadura militar. Mas o que vemos não é bem isso: um velho de boné, com a insígnia da FAB, cabisbaixo, com o pensamento cheio de interrupções.
O que deveria ser uma revelação do que o regime de 64 fez com um compositor de gênio, transformou-se em uma exibição de paradoxos e ruínas.

Sem filhos e com poucos amigos, Vandré expressa em sua solidão as marcas que os tempos de medo e o terror da ditadura deixaram.
Certa vez ouvi a seguinte história de uma ex-colega de militância do compositor pessoense, hoje médica, a quem não pedi autorização para divulgar o nome:

  “...Em torno de 74, quando eu fazia residência  no Pinel. Conheci Vandré 
quando ele foi internado na emergência psiquiátrica da Clínica de Botafogo. 
Motivo alegado: Vandré estaria ‘armado com uma faca’ e ameaçava matar a sua irmã. 
Só o vi dias mais tarde, quando tocava violão para os internos no pátio da Clínica. 
Aparentava ‘tranquilidade’, mas sua fisionomia era de dor. Ele era ouvido com atenção 
e certa admiração. Sabiam que se tratava de um compositor famoso. Não consigo me 
lembrar o que tocava. Fiquei muito emocionada e chocada com tudo aquilo. 
Era o resultado das muitas torturas que ele sofrera na repressão dos anos 60/70...”

Todavia, tal qual Hamlet, dentro desta certa loucura aparente se pode achar um pouco de lucidez. Como quando Vandré questiona o repórter global sobre seu VT (videotape) no Festival Internacional da Canção de 1968:
- “Estão guardando o VT não sei para quê. Quero ver o VT. Lá na sua estação (Rede Globo) devem ter. Procure lá. Consegue o VT para ver!”, 
Diz ele, referindo-se às imagens perdidas do imenso coro que entoou os versos de “Caminhando” num maracanãzinho lotado. Imagens estas provavelmente destruídas pela paranoia dos anos "Médici", claro que não sem o endosso da própria rede globo, historicamente tão conivente com os regimes ditatoriais que existiram e ainda existem nesse país.

Criativo, polêmico, subversivo, controverso... louco? talvez, por que não? afinal de contas, qual o parâmetro?
O paraibano Geraldo Vandré continuará, imortal, nas suas canções... 

Não, ele não foi derrotado.


(Abaixo, a letra da música cujo título inspirou não só o trocadilho do nome do blog, mas tem embalado ideais ao longo de mais de quase meio século)

Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores

(Geraldo Vandré)

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

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