quinta-feira, 28 de junho de 2012

Um delírio



No ventre de uma mulher grávida estavam dois bebês.O primeiro pergunta ao outro:- Você acredita na vida após o nascimento?- Certamente. Algo tem de haver após o nascimento. Talvez estejamos aqui
principalmente porque nós precisamos nos preparar para o que seremos
mais tarde.- Bobagem, não há vida após o nascimento. Como verdadeiramente seria
essa vida?- Eu não sei exatamente, mas certamente haverá mais luz do que aqui.
Talvez caminhemos com nossos próprios pés e comeremos com a boca.- Isso é um absurdo! Caminhar é impossível. E comer com a boca? É
totalmente ridículo! O cordão umbilical nos alimenta. Eu digo somente
uma coisa: A vida após o nascimento está excluída - o cordão umbilical é
muito curto. Basta você usar a lógica!- Na verdade, certamente há algo. Talvez seja apenas um pouco diferente
do que estamos habituados a ter aqui. Não sei explicar com clareza...- Mas ninguém nunca voltou de lá, depois do nascimento. O parto apenas
encerra a vida. E, afinal de contas, a vida é nada mais do que a
angústia prolongada na escuridão.- Bem, eu não sei exatamente como será depois do nascimento, mas com
certeza veremos a mamãe e ela cuidará de nós.- Mamãe? Você acredita na mamãe? E onde ela supostamente está?- Onde? Em tudo à nossa volta! Nela e através dela nós vivemos. Sem ela
tudo isso não existiria.- Eu não acredito! Eu nunca vi nenhuma mamãe, por isso é claro que não
existe nenhuma.- Bem, mas, às vezes, quando estamos em silêncio, você pode ouvi-la
cantando ou sente como ela afaga nosso mundo. Saiba, eu penso que só
então a vida real nos espera e agora apenas estamos nos preparando para
ela...



segunda-feira, 4 de junho de 2012

Memórias de um louco



Meia-noite, o sol brilhava no horizonte
Um negro careca penteava sua linda cabeleira loira com um pente sem dentes
Pertinho dali, a 100 mil milhas de distância
Enquanto um cego analfabeto lia um jornal
Sem letras, de ponta cabeça

Um surdo-mudo sentado em pé em uma pedra de madeira feita de barro dizia:
- "A vida é como uma canoa, que navega de cabeça pra baixo nas ondas de um poço sem água!"
Enquanto isso, na sua direia ao lado esquerdo um jacaré voava nadando devagar em alta velocidade

As vacas pulavam de galho em galho a procura de seus ninhos em rítmo de Yê-Yê-Yê
Os passarinhos pastavam o capim que nascia no asfalto.
No outro lado da cidade, em um bosque sem árvores, um elefante descansava
Aliviadamente apavorado, debaixo da sombra de um couve sem folha

Os animais observavam, de olhos fechados, uma mulher gritando baixo em voz alta:
Prefiro me matar, do que perder a vida!

Os quatro profetas,eram três: Moisés e José
O mundo era uma bola quadrada,que girava em torno da lua.

Autor desconhecido (ainda bem!)


sexta-feira, 1 de junho de 2012

Um retrato da educação fundamental no Brasil...


Estudo Errado
(Gabriel o Pensador)



Eu tô aqui, Pra quê?
Será que é pra aprender?
Ou será que é pra sentar, me acomodar e obedecer?
Tô tentando passar de ano pro meu pai não me bater
Sem recreio de saco cheio porque eu não fiz o dever
A professora já tá de marcação porque sempre me pega
Disfarçando, espiando, colando toda prova dos colegas
E ela esfrega na minha cara um zero bem redondo
E quando chega o boletim lá em casa eu me escondo
Eu quero jogar botão, vídeo-game, bola de gude
Mas meus pais só querem que eu "vá pra aula!" e "estude!"
Então dessa vez eu vou estudar até decorar cumpádi
Pra me dar bem e minha mãe deixar ficar acordado até mais tarde
Ou quem sabe aumentar minha mesada
Pra eu comprar mais revistinha (do Cascão?)
Não. De mulher pelada
A diversão é limitada e o meu pai não tem tempo pra nada
E a entrada no cinema é censurada (vai pra casa pirralhada!)
A rua é perigosa então eu vejo televisão
(Tá lá mais um corpo estendido no chão)
Na hora do jornal eu desligo porque eu nem sei nem o que é inflação
- Ué não te ensinaram?
- Não. A maioria das matérias que eles dão eu acho inútil
Em vão, pouco interessantes, eu fico pu..
Tô cansado de estudar, de madrugar, que sacrilégio
(Vai pro colégio!!)
Então eu fui relendo tudo até a prova começar
Voltei louco pra contar:
Manhê! Tirei um dez na prova
Me dei bem tirei um cem e eu quero ver quem me reprova
Decorei toda lição
Não errei nenhuma questão
Não aprendi nada de bom
Mas tirei dez (boa filhão!)
Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci
Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi
Quase tudo que aprendi, amanhã eu já esqueci
Decorei, copiei, memorizei, mas não entendi
Decoreba: esse é o método de ensino
Eles me tratam como ameba e assim eu não raciocino
Não aprendo as causas e conseqüências só decoro os fatos
Desse jeito até história fica chato
Mas os velhos me disseram que o "porque" é o segredo
Então quando eu num entendo nada, eu levanto o dedo
Porque eu quero usar a mente pra ficar inteligente
Eu sei que ainda não sou gente grande, mas eu já sou gente
E sei que o estudo é uma coisa boa
O problema é que sem motivação a gente enjoa
O sistema bota um monte de abobrinha no programa
Mas pra aprender a ser um ingonorante (...)
Ah, um ignorante, por mim eu nem saía da minha cama (Ah, deixa eu dormir)
Eu gosto dos professores e eu preciso de um mestre
Mas eu prefiro que eles me ensinem alguma coisa que preste
- O que é corrupção? Pra que serve um deputado?
Não me diga que o Brasil foi descoberto por acaso!
Ou que a minhoca é hermafrodita
Ou sobre a tênia solitária.
Não me faça decorar as capitanias hereditárias!! (...)
Vamos fugir dessa jaula!
"Hoje eu tô feliz" (matou o presidente?)
Não. A aula
Matei a aula porque num dava
Eu não agüentava mais
E fui escutar o Pensador escondido dos meus pais
Mas se eles fossem da minha idade eles entenderiam
(Esse num é o valor que um aluno merecia!)
Íííh... Sujô (Hein?)
O inspetor!
(Acabou a farra, já pra sala do coordenador!)
Achei que ia ser suspenso mas era só pra conversar
E me disseram que a escola era meu segundo lar
E é verdade, eu aprendo muita coisa realmente
Faço amigos, conheço gente, mas não quero estudar pra sempre!
Então eu vou passar de ano
Não tenho outra saída
Mas o ideal é que a escola me prepare pra vida
Discutindo e ensinando os problemas atuais
E não me dando as mesmas aulas que eles deram pros meus pais
Com matérias das quais eles não lembram mais nada
E quando eu tiro dez é sempre a mesma palhaçada
Refrão
Encarem as crianças com mais seriedade
Pois na escola é onde formamos nossa personalidade
Vocês tratam a educação como um negócio onde a ganância, a exploração, e a indiferença são sócios
Quem devia lucrar só é prejudicado
Assim vocês vão criar uma geração de revoltados
Tá tudo errado e eu já tou de saco cheio
Agora me dá minha bola e deixa eu ir embora pro recreio...
Juquinha você tá falando demais assim eu vou ter que lhe deixar sem recreio!
Mas é só a verdade professora!
Eu sei, mas colabora se não eu perco o meu emprego...




terça-feira, 29 de maio de 2012

A fábula dos porcos assados



Após um incêndio num bosque onde havia porcos, os homens, acostumados a comer carne crua, experimentaram e acharam deliciosa a carne assada. Desde então, sempre que desejavam comer porco assado, incendiavam um bosque! Houve problemas, que foram sendo resolvidos com aperfeiçoamentos, criando-se um grande SISTEMA. Mas as coisas não iam lá muito bem: às vezes os animais ficavam queimados demais, em outras muito crus. O processo preocupava a todos, porque se o SISTEMA falhava, as perdas eram grandes - milhões se alimentavam de carne assada e milhões se ocupavam da tarefa de assá-los. Portanto o SISTEMA não podia falhar. Mas quanto mais crescia a escala do processo, tanto mais parecia falhar e tanto maiores eram as perdas causadas. Em razão das inúmeras deficiências, aumentavam as queixas. Era clamor geral a necessidade de reformar profundamente o SISTEMA. Congressos passaram a ser realizados anualmente para encontrar uma solução. Mas não acertavam na melhoria do SISTEMA. As causas do fracasso do SISTEMA, segundo especialistas, eram atribuídas à indisciplina dos porcos, que não ficavam onde deveriam, ou à natureza do fogo, tão difícil de controlar, ou ainda às árvores, excessivamente verdes, ou à umidade da terra, ou ao serviço de informações meteorológicas, que não acertava no lugar, no momento e na quantidade das chuvas... Como se vê as causas eram difíceis de determinar; na verdade, o sistema para assar porcos era complexo. Montou-se uma grande estrutura: maquinaria diversificada, indivíduos dedicados exclusivamente a acender o fogo - incendiários - que eram também especializados: incendiários da Zona Norte, da Zona Oeste, etc., noturnos e diurnos, com especialização em matutino e vespertino, de verão, de inverno, etc. Havia especialistas também em ventos - os anemotécnicos. Havia um Diretor Geral de Assamento e Alimentação Assada (DGAAA), um Diretor de Técnicas Ígneas (DTI, com o seu Conselho Geral de Assessores), um Administrador Geral de Reflorestamento (AGR), uma Comissão Nacional de Formação Profissional em Porcologia (CNFPP), um Instituto Superior de Cultura e Técnicas Alimentícias (ISCUTA) e o Bureau Orientador da Reforma Ígneo-Operativa (BORI). Encontrava-se em plena atividade a formação de bosques e selvas, de acordo com as mais recentes técnicas de implantação, utilizando-se regiões de baixa umidade e onde os ventos não soprariam mais do que três horas seguidas. Milhões de pessoas trabalhavam na preparação dos bosques, que depois seriam incendiados. Especialistas estrangeiros estudavam a importação das melhores árvores e sementes, fogo mais potente, etc. Havia grandes instalações para manter os porcos antes do incêndio, além de mecanismos para deixá-los sair apenas no momento oportuno. Formaram-se professores especializados na construção destas instalações. Pesquisadores trabalhavam para as universidades que preparavam os professores especializados na construção das instalações; fundações apoiavam os pesquisadores que trabalhavam para as universidades que preparavam os professores especializados na construção das instalações, etc. As soluções que os congressos sugeriam eram, por exemplo, aplicar o fogo de forma triangular, depois de atingida determinada velocidade do vento, soltar os porcos 15 minutos antes que a temperatura média da floresta atingisse 47 graus, posicionar ventiladores gigantes em direção oposta à do vento, de forma a direcionar o fogo, etc. Poucos especialistas estavam de acordo entre si; cada um baseava as suas idéias em dados e pesquisas específicos. Um dia, um incendiário categoria AB/SODM-VCH (Acendedor de Bosques especializado em Sudoeste Diurno, Matutino, com bacharelato em Verão Chuvoso), chamado João Bom-Senso, pensou e disse que o problema era muito fácil de ser resolvido - bastava matar o porco escolhido, limpar e cortar adequadamente o animal, colocando-o então sobre uma armação metálica sobre brasas, até que o efeito do calor - e não as chamas - assasse a carne. Informado sobre as idéias do funcionário, o DGAAA mandou chamá-lo ao seu gabinete e depois de ouvi-lo pacientemente, disse: – Tudo o que o senhor disse está muito bem, mas, na prática, não funciona. O que faria o senhor, por exemplo, com os anemotécnicos, caso viéssemos a aplicar sua teoria? Onde seria empregado todo o conhecimento dos acendedores de diversas especialidades? – Não sei – disse João. – E os especialistas em sementes? Em árvores importadas? E os projetistas de instalações para porcos, com as suas novas máquinas purificadoras automáticas de ar? – Não sei. – E os anemotécnicos que levaram anos especializando-se no estrangeiro, e cuja formação custou tanto dinheiro ao país? Vou mandá-los limpar porquinhos? E os conferencistas e estudiosos, que ano após ano têm trabalhado no Programa de Reforma e Melhoramentos? Que lhes faço, se a sua solução resolver tudo? Hein? – Não sei – repetiu João, encabulado. – O senhor percebe agora que a sua idéia não vem ao encontro daquilo de que necessitamos? Não vê que, se tudo fosse tão simples, os nossos especialistas já teriam encontrado a solução muito tempo atrás? Com certeza compreende que eu não posso simplesmente convocar os anemotécnicos e dizer-lhes que tudo se resume a utilizar brasinhas ... sem chamas! O que espera que eu faça aos quilômetros e quilômetros de bosques já preparados, cujas árvores são tão especializadas que não dão frutos nem têm folhas para dar sombra? Vamos, diga-me. – Não sei não, senhor. – Diga-me, em relação aos nossos três engenheiros em Suino-Piro-Tecnia, o senhor não considera que sejam personalidades científicas do mais extraordinário valor? – Sim, parece que sim. – Pois então?! O simples fato de possuirmos valiosos engenheiros em Suino-Piro-Tecnia indica que o nosso sistema é muito bom. O que faria eu com indivíduos tão importantes para o país? – Não sei. – Percebeu? O senhor tem é que trazer soluções para certos problemas específicos – por exemplo: como melhorar as anemotécnicas atualmente utilizadas, como obter mais rapidamente acendedores de Oeste (a nossa maior carência), como construir instalações para porcos com mais de sete andares. Temos que melhorar o SISTEMA, e não transformá-lo radicalmente, entende? Ao senhor, falta-lhe sensatez! – Realmente … eu estou perplexo! – respondeu o João. – Bem, agora que o senhor conhece as dimensões do problema, não ande por aí dizendo que pode resolver tudo. O problema é bem mais sério e complexo do que imagina. Agora, aqui entre nós: devo recomendar-lhe que não insista nessa sua idéia. Isso poderia trazer-lhe graves problemas a si e ao seu cargo. Não por mim … o senhor entende. Eu digo isto para o seu próprio bem, porque eu o compreendo, entendo perfeitamente o seu posicionamento, mas o senhor bem sabe que pode apanhar outro superior menos compreensivo, não é assim? João Bom-Senso, coitado, não disse nem mais um "a", sobre o assunto. Sem se despedir, meio atordoado, meio assustado, com a sensação de estar caminhando de cabeça para baixo, saiu de fininho e nunca mais ninguém o viu. 

(Autor desconhecido)

"Porco aranha, 
Porco aranha... 
pouco porco.... 
e mais aranha..." 
(Homer Simpson)


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Adeus às armas


Entrevista de Geraldo Vandré ao repórter Geneton Moraes Neto - programa Dossiê Globo News - 12-Set-2010



Ernest Hemingway em “O Velho e o Mar” dizia que é possível destruir um homem, mas nunca derrotá-lo. 

Talvez o pensamento acima seja o que melhor descreve este homem: Geraldo Vandré, entrevistado no dia do seu 75º aniversário.
Nascido em João Pessoa em 1935, cantor, compositor, ex-participante do movimento estudantil, ele é autor de sucessos como 'Disparada' e a "Marselhesa brasileira" 'Pra não dizer que não falei das flores'.

Talvez uma das figuras mais enigmáticas da MPB, "sumido" durante décadas da mídia, nesta entrevista teríamos finalmente a chance de ver as revelações de um dos artistas mais transgressores e perseguidos pela ditadura militar. Mas o que vemos não é bem isso: um velho de boné, com a insígnia da FAB, cabisbaixo, com o pensamento cheio de interrupções.
O que deveria ser uma revelação do que o regime de 64 fez com um compositor de gênio, transformou-se em uma exibição de paradoxos e ruínas.

Sem filhos e com poucos amigos, Vandré expressa em sua solidão as marcas que os tempos de medo e o terror da ditadura deixaram.
Certa vez ouvi a seguinte história de uma ex-colega de militância do compositor pessoense, hoje médica, a quem não pedi autorização para divulgar o nome:

  “...Em torno de 74, quando eu fazia residência  no Pinel. Conheci Vandré 
quando ele foi internado na emergência psiquiátrica da Clínica de Botafogo. 
Motivo alegado: Vandré estaria ‘armado com uma faca’ e ameaçava matar a sua irmã. 
Só o vi dias mais tarde, quando tocava violão para os internos no pátio da Clínica. 
Aparentava ‘tranquilidade’, mas sua fisionomia era de dor. Ele era ouvido com atenção 
e certa admiração. Sabiam que se tratava de um compositor famoso. Não consigo me 
lembrar o que tocava. Fiquei muito emocionada e chocada com tudo aquilo. 
Era o resultado das muitas torturas que ele sofrera na repressão dos anos 60/70...”

Todavia, tal qual Hamlet, dentro desta certa loucura aparente se pode achar um pouco de lucidez. Como quando Vandré questiona o repórter global sobre seu VT (videotape) no Festival Internacional da Canção de 1968:
- “Estão guardando o VT não sei para quê. Quero ver o VT. Lá na sua estação (Rede Globo) devem ter. Procure lá. Consegue o VT para ver!”, 
Diz ele, referindo-se às imagens perdidas do imenso coro que entoou os versos de “Caminhando” num maracanãzinho lotado. Imagens estas provavelmente destruídas pela paranoia dos anos "Médici", claro que não sem o endosso da própria rede globo, historicamente tão conivente com os regimes ditatoriais que existiram e ainda existem nesse país.

Criativo, polêmico, subversivo, controverso... louco? talvez, por que não? afinal de contas, qual o parâmetro?
O paraibano Geraldo Vandré continuará, imortal, nas suas canções... 

Não, ele não foi derrotado.


(Abaixo, a letra da música cujo título inspirou não só o trocadilho do nome do blog, mas tem embalado ideais ao longo de mais de quase meio século)

Pra Não Dizer Que Não Falei Das Flores

(Geraldo Vandré)

Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não
Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Caminhando e cantando
E seguindo a canção

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Pelos campos há fome
Em grandes plantações
Pelas ruas marchando
Indecisos cordões
Ainda fazem da flor
Seu mais forte refrão
E acreditam nas flores
Vencendo o canhão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Há soldados armados
Amados ou não
Quase todos perdidos
De armas na mão
Nos quartéis lhes ensinam
Uma antiga lição:
De morrer pela pátria
E viver sem razão

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

Nas escolas, nas ruas
Campos, construções
Somos todos soldados
Armados ou não
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Somos todos iguais
Braços dados ou não

Os amores na mente
As flores no chão
A certeza na frente
A história na mão
Caminhando e cantando
E seguindo a canção
Aprendendo e ensinando
Uma nova lição

Vem, vamos embora
Que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora
Não espera acontecer

sexta-feira, 27 de abril de 2012

NEGO


Patriota rima com idiota... 
Desde que me entendo por gente, nunca gostei da ideia de idolatrar a pátria nem de sentimentos nacionalistas... Acho que me lembra o "Nacional Socialismo" de Hitler ou Stálin... Enfim, nunca vi sentido em nada que nos categoriza baseado em linhas imaginárias que a cada dia nos aprisionam e dividem mais...
Todavia, se por um lado nunca possui 'sentimentos fortes' como brasileiro, adoto como pátria meu estado. Talvez por achar interessante o "complexo de vira-latas" que ali existe... Esse termo, outrora cunhado por Nelson Rodrigues para designar o complexo de inferioridade do Brasil em relação ao resto do mundo (no futebol e na vida, segundo o escritor carioca), hoje se aplica bem ao estado da federação que sofre com uma baixa auto-estima crônica acompanhada de uma 'resignação não-se-de-quê'...
Nada representa tão bem esse capachismo lúgubre que uma bandeira 100% dedicada a um político. Não, não um revolucionário, nem um mártir (a não ser que se considere mártir quem é executado por acerto de contas motivo por questões pessoais), mas um político coronelista, especialista na arte do conchavo, da formações dos currais eleitorais, tudo de mais anacrônico e retrógrado que existia e, é claro, existe até hoje na política tabajara. Sendo que esse é, em última análise, o maior atravancamento do desenvolvimento social e moral do meu estado.
Nesse contexto não é de se estranhar não só a bandeira como o nome da capital rendendo homenagem ao apoio à ditadura Vargas, à submissão a lei do "manda-quem-pode-e-obedece-quem-tem-juízo" e a um "nego", que não tem negado décadas e mais décadas de educação, acompanhado de muita demagogia e submissão cultural a um 'brasil' (assim mesmo, em minúsculo), pelo qual fazemos bem mais por ele do que ele faz por nós.
Certa vez, bem me lembro, a seleção brasileira de futsal acabava de se consagrar pentacampeã do mundo, na comemoração, Fininho, um dos craques do time quis mostrar seu amor pela terra natal empunhando a bandeira rubro-negra, quando o locutor Luiz Roberto que fazia a transmissão ao vivo pela Rede Globo disparou: "Olha o Fininho com a bandeira do Flamengo"... A ignorância do empregado do maior veículo de comunicação do país pra mim naquele momento foi emblemática, também não foi de se estranhar.
Não é de se estranhar... nada é de se estranhar... aliás, esse é o ponto: ninguém estranha, ninguém questiona. Chegamos ao século XXI com o mesmo culto a quem pouco tem a oferecer a nada representa ou tem compromisso com o estado. Figuras ímpares como Augusto dos Anjos, Zé Ramalho ou Chico César não têm vez para representar um estado desse. E sim uma bandeira NEGO, que nega e tem negado a mim e a meus conterrâneos ao longo dos anos. 
E por falar em conterrâneos, vale lembrar que, como já dizia um deles: "A arte é de viver da fé, só não se sabe fé em quê"